Pouco mais de um mês após a Polícia Militar voltar às ruas, um olhar mais atento sobre as estatísticas ajuda a entender o rastro de saques, assaltos e mais de 200 assassinatos no Espírito Santo, no chamado “fevereiro sangrento”. O primeiro dado que chama atenção é que a explosão dos homicídios ocorreu justamente nos municípios mais populosos (exceção a Cachoeiro de Itapemirim) e com histórico de crimes, revelando que a violência é endêmica no Espírito Santo.
Dos 78 municípios capixabas, foram registrados assassinatos apenas em 39, exatamente a metade. Dos 232 homicídios registrados em fevereiro, durante a paralisação da PM (de 4 a 25 de fevereiro), de acordo com os dados da Secretaria de Segurança Pública (Sesp), 158 se concentraram nos seis municípios (sempre excluindo Cachoeiro de Itapemirim) mais populosos do Estado: Serra, Vila Velha, Vitória, Cariacica, Linhares e São Mateus.
Somadas, as populações desses seis municípios representam 2 milhões de habitantes. Isso equivale a mais da metade (51%) da população do Espírito Santo (em torno de 3,9 milhões – IBGE 2016). Esses municípios responderam por 68% dos assassinatos ocorridos em fevereiro. Mas esse dado não é isolado. Esses municípios, nos últimos seis meses, foram responsáveis por 63% dos homicídios registrados no Estado. De setembro a fevereiro, segundo a Sesp, o Espírito Santo registrou 703 homicídios, 442 deles nesses seis municípios (veja tabela ao lado).
Cachoeiro é exceção
Cachoeiro de Itapemirim foge à regra dos mais populosos com histórico de violência que registram aumento dos índices de homicídios em fevereiro. O município sulista tem a quinta maior população do Estado, com 210 mil habitantes (IBGE 2016), mas registrou apenas três assassinatos em fevereiro. Um terço das mortes, por exemplo, ocorridas no mesmo período em Nova Venécia, que tem um quarto da população de Cachoeiro.
Nos últimos seis meses, Cachoeiro registrou 24 homicídios contra, por exemplo, 39 de São Mateus, que tem 126 mil habitantes.
Além dos seis mais populosos, há um segundo escalão municípios, com população acima de 40 mil habitantes que também tiveram aumento dos homicídios em fevereiro, mas que historicamente também se enquadram no perfil de violentos. Casos, por exemplo, de Aracruz (norte), Colatina (noroeste) e Guarapari (sul)
Sem PM, mas sem homicídios
Se a metade dos municípios mergulhou no colapso da segurança pública, assistindo a violência explodir em fevereiro, exatamente a outra metade, 39 cidades, não registrou um único homicídio no mesmo período. O fator populacional e o histórico de não violência se mostraram determinantes para a ausência de crimes nessas localidades.
Dos 39 municípios que não registraram assassinatos, 29 têm menos de 20 mil habitantes. Mais impressionante, em 19 deles não há registro de homicídio nos últimos seis meses. Esses municípios menos populosos já não recebem a devida atenção do Estado, que concentram os recursos humanos e materiais de segurança nas localidades mais violentas.
Isso permite concluir que nesses municípios em que o policiamento já não é presente, a ausência da PM não fez muito diferença, ou seja, nessas cidades não ocorrem crimes não por causa da ação ou omissão da polícia, mas devido ao histórico de não violência presente em sociedades pouco populosas.
Violência localizada
Escapam à regra municípios com população em torno de 30 mil habitantes ou menos, mas que têm histórico de violência, inclusive com registro de homicídios no “fevereiro sangrento”. É o caso de municípios localizados próximas às divisas do Espírito Santo com Bahia, Minas Gerais e Rio de Janeiro.
Enquadram-se nessa situação municípios como Água Doce do Norte (noroeste), Ibatiba (Caparaó), Montanha (norte), Presidente Kennedy (sul). A reportagem classificou ao todo 10 municípios com esse perfil.  (Fonte: Século Diário)