Salvador Bonomo
Ex-Deputado estadual e Promotor de Justiça

 

Laurent Alexandre, médico francês, escreveu “A Morte da Morte”, Editora Manole Ltda., tema já versado por Yuval Harari, professor de História na Universidade Hebraica de Jerusalém, sobre o avanço da medicina, rumo à imortalidade.

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Admite-se que a Idade Média se situa entre 476 e 1.453, onde e quando só se viviam 35 anos. Entre nós, em 1920, viviam-se 40, enquanto, hoje, vivem-se 76,74, prevendo-se já ter nascido quem viverá 1.000, que superará o personagem bíblico, Matusalém (Antigo Testamento), que teria vivido 969.

A morte era fatal. Mas a medicina biotecnicocientífica [NBIC = Nanotecnologia, Biologia, Informática e Ciências cognitivas (inteligência artificial e ciência do cérebro)] já a elege como escolha, não como destino.

Para alguns cientistas, em virtude da evolução da Biotecnologia, a medicina do século XXI fará clonagem terapêutica – eufemismo de “terapia celular” – usando células-tronco, que ensejarão substituir a lógica da reparação pela da regeneração, isto nas próximas duas décadas.

Nanotecnologia é tecnologia que manipula átomo e molécula. Segundo estudo, a Nanotecnologia superará a nova fase da medicina biotecnológica, cujo avanço vê minha geração como marco temporal: fim da morte-destino e começo da morte-escolha.

Laurent diz que, embora a Biotecnologia já manipule corpo humano e ainda precise de algum tempo, não verá obstáculo rumo à imortalidade. Cientistas transumanistas acham dever-se usar tecnologia e ciência que valorizem o físico e a mente, pois pertinem à imortalidade, que, se foi mito até o fim de XX, avizinha-se do real.

A medicina biotecnológica e as NBIC ((Nanotecnologia, Biologia, Informática e Ciências cognitivas (inteligência artificial e ciência do cérebro) gerará ruptura profunda na ordem vigente. Aliás, face à evolução biotecnicocientífica, neste século haverá mais mudanças que no último milênio.
Até o século XX, a medicina era a de Hipócrates; de massa, cujo método era aleatório: apoiada, basicamente, em noções, diagnósticos e sintomas.

Em face das tecnologias NBIC, o método clássico tornou-se obsoleto. Face à evolução, a medicina deste século surpreenderá, pois fulcrada nos “4P” (Preditiva, Preventiva, Personalizada e Participativa), rumo à medicina personalizada: cura antes da doença.

Aliás, breve a cura será testada em computador, cujo primeiro teste convincente, de diabete, já se fez em 2010. Intui-se que, na medicina personalizada, os remédios serão feitos “sob medida”.

Há 10 mil anos, o homem começou a domar a Natureza, iniciando na Agricultura, mas só há poucas décadas passou a intervir na esfera do vivo, animal e vegetal, graças à Biologia. Tal ação começou nas partes doentias. Aliás, segundo Darwin, resultamos de seleção, graças ao cérebro. O século XXI encarará o dilema de administrar a “pós-seleção natural”, evitando-se mudança irreversível.

Prevê-se que as NBIC substituirão o atual paradigma, ensejando que, detendo-se saber, comportamento, domínio de comunicação e informação, tudo será de poucos, que, ditando regras de hábitos e de regimes políticos, deterão o Tecnopoder: quem viver, verá.

Concluindo, avoco dicção do padre Antônio Vieira (1608-1697): “O livro é um mundo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive”.

Vitória, ES, 12.01.2020