Salvador Bonomo é Ex-Deputado estadual e Promotor de Justiça inativo

Futebol é palavra formada por aglutinação de dos termos ingleses [foot (pé) e ball (bola) = futebol], que significa jogo de bola com os pés. Segundo registros históricos, a origem dessa modalidade de esportes remonta a 3.000 mil anos antes de Cristo, porém, foi, em 1863, na Inglaterra, que adotou a base dos fundamentos atuais.

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Charles William Miller, paulista, descendente de ingleses, que estudava na Inglaterra, foi quem trouxe para São Paulo, em 1894, 2 bolas, 1 par de chuteiras e 1 livro de regras. Em 13.5.1888 (dia da libertação dos escravos), fundou-se o primeiro time: o “São Paulo Athletic Club”. Em 1914, fundou-se a CBD, hoje CBF. Em 15.04.1895, realizou-se a primeira partida entre empregados de empresas inglesas, sediadas em São Paulo.

Em 1921, Graciliano Ramos, ilustre escritor alagoano e autor de marcantes obras, entre as quais “Vidas Secas”, publicou uma interessante Crônica – “Traços a Esmo” – em que afirmou que, em razão de o nosso povo adorar de novidades, o futebol se tornaria uma “mania”, provocaria muita “excitação” e um “furor do demônio”, mas, tudo não passaria de mero “fogo de palha”, pois, sendo os brasileiros um povo de estrutura física mirrada, raquítica, não teriam vocação para estrangeirices, como o turfe, o boxe e o futebol.

Graciliano asseverou, mais, que o que o povo tinha mesmo era vocação para cavalhada, corrida, salto, queda de braço, porrete e, sobretudo, rasteira, como evidenciado nesta frase de sentido nacionalista: “Estrangeirices não entram facilmente na terra do espinho. O futebol, o boxe, o turfe, nada pega”.

Acrescentou que, no comércio, na indústria, nas letras, no jornalismo, nas artes, enfim, na vida prática dos vários segmentos da nossa Sociedade, salvar-se-iam todos, desde que adotássemos o esporte da moda, que era a rasteira, pois: “A rasteira! Este, sim, é o esporte nacional por excelência”!

Ressaltou, ainda, Graciliano que, quem tivesse vocação para a Política, poderia ter a certeza de que venceria muito facilmente na vida, com auxílio da rasteira, pois “É aí que ela culmina”, e que “Não havia político que não a praticasse. Desde Sua Exa., o Senhor Presidente da República até o mais pançudo e beócio coronel da roça, desses que usam sapatos de trança, bochechas moles e espadagão da Guarda Nacional, todos os salvadores da pátria têm a habilidade de arrastar o pé no momento oportuno”.

O conceito de rasteira, que se extrai dessa histórica Crônica é mais uma prova que se agrega à concepção do que se confere à “Lei de Gérson”, que regula a conduta dos que gostam de levar vantagem em tudo, que, por sua vez, numa visão ampliada, encarta a ponta do iceberg – o Patrimonialismo – que é “vício” que permeia nossa Cultura.

Concluo, concordando, embora em parte, com o autor de “Memórias do Cárcere”. Digo em parte, porque Graciliano acertou em relação à rasteira, entretanto, equivocou-se no pertinente à “mania”, autorizando-me, assim, a registrar que, no Brasil, quem não joga bola, dá bola ou pega bola, forma conotativa de rasteira, de que são típicos e cabais exemplos o “Mensalão”, o “Petrolão” e a “CPI do Futebol”, recentemente instaurada no Senado da República para apurar “maracutaias” no campo esportivo.

Vitória, ES, 17.04.2018.

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