Salvador Bonomo é Ex-Deputado estadual e Promotor de Justiça inativo

Na década de 1970, Gérson de Oliveira Nunes (1941-), o canhotinha de ouro da Seleção Brasileira de Futebol, foi contratado para fazer propaganda do cigarro Vila Rica. Eis a íntegra da citada promoção: “Gérson, por que Vila Rica? Por que pagar mais caro, se Vila me dá tudo aquilo que eu quero? Gosto de levar vantagem em tudo, certo! Leve vantagem você também, leve Vila Rica!”

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“Gosto de levar vantagem em tudo” é bordão, idêntico ao “Ai se eu te pego”! guardando afinidade com os termos “jeitinho”, “gato”, “gambiarra”, “pixuleco”, etc., que revelam o “vício” patrimonialista de que está eivada a nossa Cultura.

O “jeitinho é uma espécie de célula, que compõe a Lei de Gérson, que deságua no Patrimonialismo, que permeia a Cultura, que anda tão contaminada que se revelou até em certa conduta aparentemente insignificante da própria Presidente Dilma Rousseff, consistente em substituir a inscrição na chapa do veículo da PresidênCIA da República por PresidentA, como se lhe pertencesse o carro.

A presença do Patrimonialismo pode revelar-se até através de plágios, o que, aliás, vem, há muito, ocorrendo, por exemplo, no Sindicalismo e no Pluralismo Político, como consequência de desvios de finalidade.

O nosso Sindicalismo é maculado por sindicatos de gaveta, continuísmo e peleguismo, pois, além da unidade e da unicidade, deveria defender com muito zelo os direitos dos associados, prestar contas, submeter-se à fiscalização e alternância no poder – essência do processo democrático – razão por que deve ser aberta a ‘caixa preta” para se saber, por exemplo, a destinação dos R$ 3,2 bilhões do imposto sindical correspondente somente ao ano de 2015.

Dúvida não há de que nosso Sindicalismo é eivado de graves anomalias, pois, enquanto, nos EUA, Espanha, França e Itália, há apenas 1 Central Sindical, já temos 8 registradas no Ministério do Trabalho. Sindicatos nos EUA, 190; na Inglaterra, 168; no Brasil, 17.200 que racham bilhões resultantes de contribuição. É situação surrealista, pois duas realidades contrastantes: numa, líderes no paraíso; noutra, trabalhadores em autêntico inferno, visto que mais de 12 milhões de trabalhadores se encontram desempregados!

O que se disse acima, ocorreu no âmbito do Pluralismo Político (CF|88, art. 1º, V), pois, espancando-se os princípios constitucionais da proporcionalidade e da razoabilidade, 35 Partidos já foram registrados no TSE, cuja maior parte só tem vida cartorária, e, em vez de ideologias e programas, têm interesses por verbas, horário eleitoral, cargos, emendas parlamentares e Ministérios: são autênticas moedas de troca!

Por que há 17.200 Sindicatos, 8 Centrais Sindicais, 35 Partidos, 39 Ministérios, etc.? Porque o Patrimonialismo, que permeia a Cultura, motiva os ímprobos predadores da riqueza do País a sugar suor e sangue do povo, que já suporta pesada carga tributária!

Aliás, a mentalidade patrimonialista é tão arraigada entre nós que há setores da Administração Pública que mais parecem condomínios familiares!

Concluo, averbando dicção do ex-Presidente da República do Brasil, Fernando H. Cardoso (1931-…), vazada nestes termos: “O Patrimonialismo, como se sabe, é a pior privatização da coisa pública”.

Vitória, ES, 10 05.2016

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