jovem músico pavoense Nicolas Berger, ex-integrante da Banda Up Pomerisch de Vila Pavão. Foto: Facebook

A Banda Up Pomerisch de Vila Pavão que no dia 23 de novembro próximo completa 13 anos de existência tinha apenas uma canção autoral durante todo esse tempo. A música “Rät in Kafesak” (“Rato no Coador”) de autoria de Jonas Boning e José Marcos Belling, que inclusive virou videoclipe de um edital da Secretaria de Estado da Cultura/SECULT. Agora, em tempo de pandemia do coronavírus, o sociólogo e pesquisador Jorge Kuster Jacob, 62 anos, que se lança na vertente musical, e o músico Nícolas Berger, 25 anos, atualmente morando na Suécia, já produziram cerca de 15 canções autorais, a maioria reverenciando as tradições da cultura pomerana.

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A pandemia e a distância, não impediram o processo criativo da dupla. Pelo contrário, fizeram aflorar uma energia inspiradora que nos agraciou com uma rica produção musical.

As manifestações culturais dos pomeranos e a língua, que é o coração de uma cultura, uma vez que ela explica todas outras manifestações dando-lhes profunda significância, agora, viraram músicas, através dos versos de Jorge Kuster Jacob nas melodias de Nicolas Berger.

O jovem músico pavoense Nicolas Berger, ex-integrante da Banda Up Pomerisch de Vila Pavão mudou-se com a filha e esposa para Suécia em 2016. Na Suécia dedicou-se à criação de ritmos de composições próprias, mas também adaptou e criou músicas para os textos produzidos por Jorge Kuster Jacob, aposentado como professor, pesquisador e autor de livros sobre a história e cultura dos pomeranos de Vila Pavão.

Jovem músico pavoense Nicolas Berger, ex-integrante da Banda Up Pomerisch de Vila Pavão.

O primeiro contato de Nícolas com a música foi na Igreja Luterana, em Vila Pavão, onde se integrou ao grupo de trombonistas e começou a tocar violão. Depois participou da banda Up Pomerisch, como guitarrista a convite do seu fundador Hélio Mateus, num momento em que a banda tocava cover e versões em pomerano dos hits do momento, tendo participado do vídeo clip da primeira música autoral da banda, “Rät in Kafesak” (“Rato no Coador”).

Nícolas começou a compor ainda em Vila Pavão quando integrava uma banda com amigos da escola, chamada Hypnos. Tanto como integrante da Up Pomerisch, como da Hypnos, se apresentou em edições anteriores da Pomitafro. Teve experiência em bandas de Nova Venécia e na cidade vizinha tocou em festas e bares e ainda desenvolveu alguns projetos paralelos de música independente.

Depois foi para Vitória, onde aperfeiçoou seus dons na Faculdade de Música do Espírito Santo (Fames). Na capital tocou em alguns projetos independentes e festivais regionais como o Festival da Canção de Nova Almeida, onde uma vez obteve a quarta colocação com sua banda.

De Vitória foi para a Suécia. Lá ele criava canções despretensiosamente e as enviava a amigos de infância e familiares no Brasil, até que um dia, o Ramon, baterista da Up Pomerisch, sugeriu a ele que compusesse uma música com o tema Pomitafro. Algum tempo depois, a demo com a música chegou ao historiador Jorge Kuster Jacob que em cima da melodia colocou uma letra sua falando do “Mijchebroud” (Literalmente pão de milho ou simplesmente “Brote”), uma das principais referência da culinária pomerana no Brasil. A música foi lançada com enorme sucesso na 21ª Pomitafro, realizada em Vila Pavão em setembro do ano passado. Aí nascia uma parceria que já rendeu várias composições inéditas, voltadas às tradições pomeranas.

Versatilidade

Além de compor, ele próprio faz o arranjo de suas músicas. Para isso, improvisou um estúdio em sua casa na Suécia. Na composição das trilhas utiliza alguns instrumentos virtuais sequenciados e em cima grava as guitarras e as vozes. “Eu e o Jorge, temos um projeto em andamento. Não tenho condições de fazer um trabalho profissional ainda, mas, as composições ficam registradas em demo e oportunamente podem ser trabalhadas profissionalmente em estúdio. Minhas composições são versáteis. Eu toquei em igreja, banda de baile, forró sertanejo e gosto de tocar também rock´n roll com amigos. Eu escuto de tudo. Não tenho preconceito por nenhum tipo de música, tenho minhas preferências é claro”, contou o músico.

Músicas e letras

A maioria das letras é em português com o refrão em pomerano. “Não somos especialistas na língua pomerana. Na verdade, temos muitas dificuldades com a língua pomerana. As estrofes em português explicam o refrão em pomerano. Assim também conseguimos valorizar a língua pomerana e fazer entender a nossa mensagem também para as pessoas que não entendem o pomerano”, explicou Jorge Kuster Jacob.

Professor, escritor e ativista cultural, Jorge Kuster Jacob.

“Interessante essa nossa parceria. Conheço o Nícolas desde criança e da época que integrava a banda Up Pomerisch, mas, só agora com ele morando na Suécia que descobri que meus poemas e textos poderiam se encaixar em suas melodias. O isolamento social, provocado pela pandemia e as redes sociais colaboraram para a nossa aproximação. Eu procurava alguém que pudesse colocar músicas em minhas letras e ele procurava letrista”, disse.

Das composições criadas por eles, pelo menos 14 delas fazem referências aos desbravadores de Vila Pavão. A música “Tributo aos Colonizadores”, homenageia o Sr. Franz Ramlow (pomerano), Dona Rita (italiana) e Tolentino (Afro).  Na outra composição, “Germanos”, a letra fala do alemão batata (RS), o alemão broteiro (ES) e o alemão taioba (RO). A composição “Solitária Concertina” fala da importância deste instrumento musical pagão, fabricado na Alemanha até a II Guerra Mundial e que é única e alegra as festas e ritos da cultura pomerana no Espírito Santo.  A música “Pomeranos Macacos”, ao mesmo tempo traz à tona a lenda que para os pomeranos os ‘macacos trazem os bebes’ e polemiza a descendência humana. A “Mamãe Pomerana” enaltece e engrandece a mulher pomerana como uma grande companheira e guerreira.  A “Nova Pomerânia” inicia com as dificuldades na Europa, cita a guerra e fala do sofrimento, perseguição e adaptação em terras brasileiras. O samba “Canto Pomerano” vai na mesma direção da música anterior e fala das lutas e derrotas e doces vitorias no Brasil. O repertório inclui ainda três canções satíricas:  “Slecht Fruug” ( Mulher Má) que descreve uma esposa dominadora que judia do marido; a outra engraçada é a “Judita” (Judite). Essa música conta a estória de um namoro onde a Judite exagerava nos beijos e mordia.

A “Fuhl Hunt” (literalmente Cachorro Preguiçoso ou Pomerano Preguiçoso) tem uma letra bizarra. Descreve a situação onde tudo conspira para o preguiçoso não trabalhar, especialmente a formiga, o marimbondo e a urtiga. Pesquisando descobri que esse preguiçoso seria o próprio autor da letra, Jorge Kuster Jacob que por não levar muito jeito para a labuta na “roça”, foi enviado pela família ao Rio Grande do Sul para estudar.

Tem ainda a “Motorreta” que descreve o pedido de uma namorada que queria um transporte diferente onde uma moto foi adaptada a uma charrete. Ou seja, no lugar do cavalo na charrete foi colocada uma motocicleta, transporte que virou a sensação da cidade e das festas.

Não podia falta no repertório uma música bem romântica: “Mijn Süjn” (Meu Sol) compara a namorada com o sol. Outra música que valoriza o principal alimento da culinária pomerana capixaba, o “Mijchebroud” (Literalmente pão de milho ou simplesmente “Brote”), foi gravada antes da epidemia e já apresentada pela banda Up Pomerisch, enaltece as qualidades do brote.  Ainda temos a tradicional valsa “Noiva Pomerana” letra de Mylena Machado Baldan. Essa música fala da noiva de preto num tradicional casamento pomerano cheio de rituais.

Por Cleber Sabino

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