Salvador Bonomo é Ex-Deputado estadual e Promotor de Justiça inativo

A historiadora Denise Aparecida Soares Moura, apoiada na Carta de Achamento do Brasil, de Pero Vaz de Caminha, datada de 26.05.1500, sustenta que a corrupção aportou no Brasil com as Caravelas de Pedro Álvares Cabral, pois, ao informar o feito heroico a Dom Manoel I, Rei português, Caminha pediu-lhe que mandasse buscar seu genro, Jorge Osório, na ilha de São Tomé, onde cumpra pena perpétua por ter matar um padre a Jorge Osório, seu genro: nepotismo em forma de troca, toma lá, dá cá.

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O Padre Antônio Vieira (1608-1697), no Sermão do Bom Ladrão, proferido em 1655 na Igreja da Misericórdia, em Lisboa, perante Dom João IV e sua Corte, denunciou que grassavam, no Brasil-Colônia, corrupção e justiça letiva: “Os outros ladrões roubam um homem (os pobres); estes roubam cidades e reinos (os ricos); os outros furtam debaixo do seu risco (os pobres); estes, sem temor, nem perigo (os ricos); os outros, se furtam, são enforcados (os pobres): estes furtam e enforcam (os ricos)”.

Nossos saudosos intelectuais Gilberto Freyre (1900-1997), em Casa Grande & Senzala; Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), em Raízes do Brasil; Caio Prado Júnior (1907-1990), em Formação do Brasil Contemporâneo; Florestan Fernandes (1920-1995), em Fundamentos Empíricos da Explicação Sociológica; Raimundo Faoro (1925-2003), em Os Donos do Poder; e Victor Nunes Leal (1914-1985), em Coronelismo: Enxada e Voto, sustentaram que a nossa mentalidade patrimonialista é herança dos colonizadores.

Segundo a Literatura pertinente, as leis no Brasil sempre foram aplicadas de modo muito seletivo, porquanto se puniam somente pobres, pretos e prostitutas. Aliás, por oportuno, revelador é o irônico legado do saudoso escritor pátrio Fernando Sabino (1923-2004), consistente na seguinte farpa: “Para os pobres, é dura lex, sed lex: a lei é dura, mas é a lei. Para os ricos, é dura lex, sed látex: a lei é dura, mas estica”!

Para efeito de comprovar o Patrimonialismo entre nós, ilustrativo é o hipotético diálogo entre mãe e filho cariocas, que, ligando fatos vetustos a recentes, relevam o “vício” da nossa Cultura: “Mãe, no Rio se rouba desde Garotinho? Não, meu filho, desde Cabral”!

Deduzo que tudo tenha começado com o desvirtuamento de teoria idealizada em 1645 pelo jesuíta Hermann Busenbaum, vazada em termos latinos: “Cui finis est licitus, etiam media sunt licita” (Quando o fim é lícito, lícitos também são os meios), que, acredito, foi bem plagiada pelos nossos legisladores, quando elaboraram o nosso vetusto Código Penal (1940): matar (meio) para não morrer (fim): legítima defesa.

Porém, sobretudo a partir de 1980, a corrente política, encartada no PT, simbioticamente inserida em “puxadinhos”, ardilosa e perspicazmente, idealizou uma espécie de “Caixa de Pandora” (Pacote de Bondades!) para, oferecendo-a ao povo incauto, conquistar o Poder e nele se manter, em detrimento dos legítimos interesses e direitos da Sociedade, inclusive do aprimoramento da sempre perseguida Democracia, isto na medida em que vetou a alternância no Poder, essência do processo democrático.

O perspicaz ardil encerra criação de falso Partido de Trabalhadores (de que tem apenas o nome!), valendo-se dos puxadinhos” e da “base aliada”, da conivência (ação idêntica!) da oposição, da ignorância e carências de parcela do povo, da nossa mentalidade patrimonialista, da ganância de certos empresários, e falseando a teoria cristã – “Os fins justificam os meios” – conquistou o Poder e, para nele se manter, subtraíram verbas públicas (meio) para nele se perenizarem (fim).

Porém, tal conduta ilegal, em vez de configurar legítima defesa, caracterizou crimes de natureza diversa, razão pela qual tantos ímprobos foram, estão e serão processados, condenados e finalmente presos, a começar pelo “poderoso Chefão”, que, além de se intitular “metamorfose ambulante”, reiterada e zombeteiramente, rotula-se de o mais honesto dos brasileiros. Por pertinente, relevo que, acintosamente, salutar desiderato cristão – “Os fins justificam os meios” – foi desvirtuado até por alguns filósofos, como:

1) – Nicolau Maquiavel (1469-1527), filósofo, dissera, sem ressalva, que “o que move a Política é a luta pela conquista e manutenção do Poder”: “Os fins justificam os meios”;

2) – Bertrand Russel (1872-1970), filósofo, afirmara, sem exceção, que, para governante conquistar e manter o Poder, deveria ignorar convenções e princípios éticos e morais: “Em realidade, deve fazê-lo com frequência, se quiser continuar no Poder”.

3) – Antônio Gramsci (1891-1937), filósofo italiano, de forma irrestrita, pregara que, para se conquistar o Poder e nele se manter, “os fins justificam os meios”, como o fez o PT, seus “puxadinhos” e a “base aliada”, a partir da conquista da Prefeitura de Santo André (SP) – hipotética causa da morte (2002) do então Prefeito, Celso Daniel, razão precípua do “Mensalão”, “Petrolão” etc., quando a corrupção começou a virar metástase.

Ao longo da sua existência, cuja fundação data de 1980, o Partido dos Trabalhadores demonstrou seu propósito anarquista – “Aca hay gobierno? Si hay gobierno, soy contra; Si no hay, también soy” – de que são exemplos os fatos que serão registrados a seguir:

1º) – em 1985, o PT expulsou os Deputados Federais Airton Soares (SP), Bete Mendes (RJ) e José Eudes (SP), por votarem em Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, violência elogiada por Lula: o PT não veio para colaborar, veio para expulsar os democratas!

2º) – em 1988, o PT, liderado por Lula, recusou-se a aprovar a CF/88, sob a alegação de que ela era obra dos Deputados do “Centrão”, entretanto, quando Presidente da República, penitenciando-se, confessou que, se aprovado tivesse sido o texto ofertado pelos petistas, o País seria ingovernável: não veio para edificar, veio para desconstituir!

3º) – Em 1992, realizou-se o impeachment do ex-Presidente Fernando Collor de Mello, com o aguerrido e incondicional apoio do PT, liderado por Lula. O saudoso Itamar Franco, então Vice de Collor, ao assumir a Presidência, convidou o PT para integrar seu Governo, o que o PT recusou: não veio para somar, veio para dividir!

4º) em 1994, o PT, liderado por Lula, votou contra o exitoso Plano Real, que resolveu o grave problema da então vigente inflação: não veio para construir, veio para destruir!

5º) – em 2000, o PT, liderado por Lula, votou contra de Lei Responsabilidade Fiscal, em relação a que, Palocci, quando Ministro da Fazenda e Dilma na Presidência, sem corar ou pestanejar, elogiaram-na: não veio para ajudar, veio para dificultar, atrapalha!

6º) – de 1990 até aqui, já houve cento e trinta e dois (132) pedidos de impeachments de Presidentes da República, dos quais cinquenta (50) foram ofertados pelo PT. Entretanto, quando da oferta do primeiro pedido contra a ex-Presidente Dilma Rousseff, os petistas, liderados por Lula, uníssona e reiteradamente, gritaram: “é golpe!”, “é golpe!”, “é golpe”!

Lula, considerado radical, segundo vídeo atribuído à artista Regina Duarte, concorreu à Presidência da República três vezes (1989,1994, 1998), sem êxito. Venceu a primeira em 2002, quando cravou para a história essa falsa frase: “a esperança venceu o medo”.

Mas, infelizmente, o que o povo viu foi a esperança transformar-se em decepção, em pesadelo, em desespero, pois o PT errou tanto que, além de ajudar a eleger um bisonho ex-capitão do Exército e Deputado Federal do baixo clero, assemelha-se ao Titanic, que submerge em autêntico mar de lamas.

Concluindo, reitero modesto mantra: não basta sermos honestos e dizermos que somos honestos; é preciso, também, combatermos a desonestidade, sob pena de sermos coniventes com ilícitos, que, com frequência, ocorrem em torno de nós, pois, segundo dicção de Albert Einstein: “Sem cultura moral, não haverá saída para os homens”!

Vitória, ES, 10.12.2019.

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